Module 3: Electrical Fundamentals
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Module 3: Fundamentos Elétricos — Material de Estudo EASA Part-66 Categoria B1.4
Visão Geral
O Módulo 3 do programa EASA Part-66 (Anexo I do Regulamento (UE) n.º 1321/2014, Anexo III) fornece o conhecimento fundamental da teoria e prática elétrica necessário para o pessoal certificador que trabalha em aeronaves. Para a Categoria B1.4 (helicópteros com motores a turbina), este módulo cobre os princípios fundamentais da eletricidade, desde a teoria atómica básica até à geração de CA complexa e dispositivos semicondutores. O módulo está estruturado em 14 sub-tópicos (3.1 a 3.14), cada um abordando uma área específica dos fundamentos elétricos.
Os níveis de conhecimento para este módulo variam do Nível 1 (visão geral) para conceitos básicos ao Nível 3 (teoria detalhada) para áreas críticas como geradores de CC, geradores de CA, transformadores e dispositivos semicondutores. Este material de estudo sintetiza o conhecimento essencial necessário para a licença B1.4, com especial ênfase em aplicações específicas de helicópteros, como sistemas de 28 V CC, geração de CA de 400 Hz, geradores de arranque e sistemas de baterias.
3.1 Teoria do Eletrão e Eletrostática
Estrutura Atómica e Carga
Toda a matéria consiste em átomos que contêm três partículas primárias:
- Protões — com carga positiva, localizados no núcleo
- Neutrões — eletricamente neutros, localizados no núcleo
- Eletrões — com carga negativa, em órbita do núcleo em camadas
A unidade fundamental de carga é o coulomb (C), onde um coulomb equivale a aproximadamente 6,24 × 10¹⁸ eletrões. A carga de um único eletrão é de aproximadamente −1,602 × 10⁻¹⁹ C.
Condutores, Isoladores e Semicondutores
Os materiais são classificados pela sua capacidade de conduzir corrente elétrica:
| Tipo de Material | Exemplos | Características |
|---|---|---|
| Condutores | Cobre, alumínio, prata | 1–3 eletrões de valência; eletrões livres disponíveis para fluxo de corrente |
| Isoladores | Borracha, vidro, mica | 5–8 eletrões de valência; eletrões fortemente ligados |
| Semicondutores | Silício, germânio | 4 eletrões de valência; condutividade pode ser controlada |
O silício é o material semicondutor mais utilizado para díodos de potência em alternadores de aeronaves devido à sua elevada tolerância à temperatura e baixa corrente de fuga.
Princípios Eletrostáticos
- Cargas iguais repelem-se; cargas opostas atraem-se
- Campo elétrico — a região em torno de um corpo carregado onde uma força é exercida sobre outras cargas
- Capacitância — a capacidade de armazenar carga num campo elétrico, medida em farads (F)
A relação entre carga (Q), capacitância (C) e tensão (V) é:
Q = C × V
3.2 Terminologia Elétrica e Circuitos de CC
Unidades Fundamentais
| Grandeza | Unidade SI | Símbolo |
|---|---|---|
| Tensão | Volt | V |
| Corrente | Ampere | A |
| Resistência | Ohm | Ω |
| Condutância | Siemens | S |
| Potência | Watt | W |
| Energia | Joule | J |
| Indutância | Henry | H |
| Capacitância | Farad | F |
Lei de Ohm
A relação fundamental entre tensão, corrente e resistência:
V = I × R
Onde:
- V = tensão em volts (V)
- I = corrente em amperes (A)
- R = resistência em ohms (Ω)
Exemplo de cálculo: Uma válvula operada por solenoide num sistema de 28 V CC tem uma resistência de bobina de 14 Ω. A corrente consumida é:
I = V / R = 28 V / 14 Ω = 2 A
Potência Elétrica
A potência é a taxa à qual a energia elétrica é convertida noutra forma. Em circuitos de CC:
P = V × IFormas alternativas usando a substituição da lei de Ohm:
- P = I² × R
- P = V² / R
Exemplo de cálculo: Um sistema DC de 28 V com uma carga que consome 10 A dissipa:
P = 28 V × 10 A = 280 W
Exemplo de cálculo: Uma carga com 24 V aos seus terminais e 12 Ω de resistência dissipa:
P = V² / R = 24² / 12 = 576 / 12 = 48 W
Resistência e Condutores
A resistência de um condutor depende de:
- Comprimento (L) — a resistência é diretamente proporcional ao comprimento
- Área da secção transversal (A) — a resistência é inversamente proporcional à área
- Resistividade do material (ρ) — uma propriedade do material
R = ρ × L / A
Exemplo: Se um fio tem uma resistência de 0,5 Ω e o seu comprimento é duplicado (com a mesma área da secção transversal e o mesmo material), a nova resistência passa a ser 1,0 Ω.
Um barramento com uma resistência de 0,001 Ω indica uma condutividade excelente, como esperado para um componente de distribuição de energia.
Resistência Interna e FEM
Toda a fonte de tensão tem resistência interna. A relação entre a FEM gerada (E), a tensão nos terminais (V), a corrente de carga (I) e a resistência interna (r) é:
E = V + (I × r)
Exemplo: Um gerador DC de 28 V com 0,01 Ω de resistência interna que fornece 150 A nos seus terminais tem uma FEM gerada de:
E = 28 V + (150 A × 0,01 Ω) = 28 + 1,5 = 29,5 V
Exemplo: Uma bateria de 24 V com 0,02 Ω de resistência interna que fornece 200 A a um motor de arranque sofre uma queda de tensão interna de:
V_queda = 200 A × 0,02 Ω = 4 V
Esta queda interna reduz a tensão nos terminais durante consumos de corrente elevada, o que é crítico para o funcionamento do motor de arranque.
Leis de Kirchhoff
Lei das Correntes de Kirchhoff (LCK): A soma das correntes que entram num nó é igual à soma das correntes que saem desse nó.
Lei das Tensões de Kirchhoff (LTK): A soma algébrica de todas as quedas e elevações de tensão em qualquer malha fechada é igual a zero.
3.3 Equipamentos de Teste Elétrico e Medições
Multímetros
Um multímetro combina várias funções de medição:
- Voltímetro — mede a tensão; ligado em paralelo aos terminais do componente
- Amperímetro — mede a corrente; ligado em série com o circuito
- Ohmímetro — mede a resistência; só deve ser utilizado em circuitos desenergizados
Nota de segurança crítica: Um amperímetro nunca deve ser ligado em paralelo — isto cria um curto-circuito. Um ohmímetro nunca deve ser utilizado num circuito sob tensão.
Amperímetros de Pinça
Para medir a corrente num circuito sob tensão sem o interromper, utiliza-se um amperímetro de pinça (pinça de corrente). Este mede o campo magnético em torno do condutor e apresenta a corrente correspondente. Este é o método correto para a resolução de problemas em circuitos sob tensão onde a interrupção do circuito não é permitida.
Megôhmetro (Megger)
O megôhmetro mede a resistência de isolamento em megohms (MΩ). Considerações principais:
- Seleção da tensão de teste: A tensão de teste do megger deve ser adequada à tensão do sistema. Para um sistema DC de 28 V, um megger de 500 V não é recomendado — a tensão de teste elevada pode stressar e danificar o isolamento. Normalmente, um megger de 50 V ou 100 V é especificado para sistemas de 28 V.
- Valores mínimos aceitáveis: Para a cablagem de aeronaves, uma resistência de isolamento mínima de 1 MΩ é geralmente aceitável, embora muitos operadores exijam valores mais elevados.
- Interpretação: Uma leitura de 2 MΩ num sistema de 28 V está acima do mínimo de 1 MΩ e indica um isolamento aceitável, desde que a tensão de teste correta tenha sido utilizada.
Medidores de FrequênciaUm frequencímetro é utilizado para medir a frequência de um sinal de corrente alternada (CA). Isto é essencial ao verificar a saída do gerador, tipicamente 400 Hz em sistemas de aeronaves.
Teste de Continuidade
Um teste de continuidade utilizando a função de ohmímetro de um multímetro deve indicar:
- Fio bom: Resistência próxima de zero (caminho completo)
- Circuito aberto: Resistência infinita (sem caminho)
Medidores de Rotação de Fase
Um medidor de rotação de fase verifica a sequência de fases de um sistema trifásico. Quando ligado com os cabos na ordem A-B-C, uma rotação no sentido horário indica que a sequência está correta. Uma sequência de fases incorreta pode fazer com que motores trifásicos girem na direção errada.
3.4 Baterias
Baterias de Chumbo-Ácido
As baterias de chumbo-ácido são comumente utilizadas em aplicações de helicópteros. Características principais:
- Tensão nominal da célula: 2,0 V por célula
- Tensão de circuito aberto totalmente carregada: 2,1 V por célula (25,2 V para uma bateria de 24 V)
- Eletrólito: Ácido sulfúrico (H₂SO₄) diluído em água
Medição da Densidade Relativa:
O estado de carga (SOC) de uma bateria de chumbo-ácido é determinado medindo a densidade relativa (SG) do eletrólito utilizando um densímetro:
| Estado de Carga | Densidade Relativa (a 25°C) |
|---|---|
| Totalmente carregada | 1,280 |
| 50% carregada | ~1,200 |
| Descarregada | 1,120–1,150 |
Exemplo de cálculo: Uma bateria com SG totalmente carregada de 1,28 e SG descarregada de 1,12, medida a 1,20:
SOC = (SG_medida − SG_descarrregada) / (SG_carregada − SG_descarrregada) × 100%
SOC = (1,20 − 1,12) / (1,28 − 1,12) = 0,08 / 0,16 = 50%
Avaliação do SOC Baseada na Tensão:
Uma bateria de chumbo-ácido de 24 V totalmente carregada tem uma tensão terminal de circuito aberto de aproximadamente 25,2 V. Esta é a condição saudável sem carga. A tensão nominal de 24 V é o valor nominal, enquanto 28 V é a tensão do barramento do sistema durante o carregamento.
Capacidade da Bateria e Estado de Carga
A capacidade da bateria é medida em ampere-horas (Ah). O estado de carga após um evento de descarga é calculado como:
SOC = (Capacidade − Descarga) / Capacidade × 100%
Exemplo: Uma bateria de 25 Ah fornece 400 A durante 30 segundos durante um arranque do motor:
Descarga = 400 A × (30 / 3600) h = 400 × 0,00833 = 3,33 Ah
SOC = (25 − 3,33) / 25 × 100% = 21,67 / 25 × 100% = 86,7%
Carregamento de Baterias em Sistemas Paralelos
Quando uma bateria é ligada em paralelo com um gerador ou unidade de alimentação de terra (GPU):
- A bateria é carregada quando a tensão do gerador excede a tensão terminal da bateria
- A corrente de carregamento é limitada pela resistência interna da bateria
- Uma bateria de 24 V totalmente carregada (25,2 V) ligada a um barramento de 28,5 V receberá uma corrente de carregamento
- A bateria atua como um filtro no sistema de corrente contínua (CC), suavizando a ondulação da tensão
3.5 Geradores e Motores de Corrente Contínua (CC)
Princípios do Gerador de CC
Um gerador de CC converte energia mecânica em energia elétrica através de indução eletromagnética. A tensão de saída é proporcional a:
- Corrente de campo
- Velocidade de rotação
- Número de condutores da armadura
FEM Gerada: E = V + (I × R_interna)
Regulação de Tensão:
A regulação de tensão é definida como:
% Regulação = (V_sem carga − V_plena carga) / V_plena carga × 100%
Exemplo: Um gerador classificado a 28 V, 100 A. Com uma carga de 80 A, a tensão é de 30 V. Com o regulador ajustado para 28 V na carga nominal:
% Regulação = (30 − 28) / 28 × 100% = 2/28 × 100% = 7,14%
Tipos de Geradores de CC| Tipo | Ligação do Campo | Características | Aplicações |
|------|-----------------|-----------------|--------------|
| Série | Campo em série com a armadura | Alto binário de arranque; má regulação de velocidade | Motores de arranque |
| Derivação (Shunt) | Campo em paralelo com a armadura | Boa regulação de velocidade; baixo binário de arranque | Aplicações de velocidade constante |
| Composto (Compound) | Campos série e derivação | Alto binário de arranque + velocidade estável | Geradores de arranque |
Geradores de Arranque
Os motores de pistão de helicópteros utilizam normalmente máquinas de enrolamento composto para a função de gerador de arranque:
- Modo de arranque: O campo série fornece alto binário de arranque para acionar o motor
- Modo de geração: O campo derivação fornece regulação estável de tensão
O solenoide (contator) no circuito de arranque utiliza uma pequena corrente de controlo para fechar contactos de serviço pesado, conduzindo a alta corrente de arranque (tipicamente 200–400 A).
Controlo e Proteção do Gerador
Regulador de Tensão:
- Detecta a tensão do sistema
- Ajusta a corrente do campo do gerador para manter uma tensão de saída constante (tipicamente 28 V)
- Compensa variações na velocidade do motor e na carga
Modo de falha: Se o regulador falhar com corrente de campo máxima, a tensão de saída subirá acima do valor regulado, podendo causar danos por sobretensão ao sistema elétrico.
Relé de Corte de Corrente Reversa (RCC):
- Abre o circuito entre o gerador e a bateria quando a tensão do gerador cai abaixo da tensão da bateria
- Impede que a bateria alimente o gerador como motor
- Essencial para a operação paralela do gerador e da bateria no mesmo barramento
3.6 Teoria de CA
Fundamentos da Forma de Onda CA
Frequência (f): O número de ciclos completos por segundo, medido em hertz (Hz). Os sistemas de aeronaves utilizam tipicamente 400 Hz.
Período (T): O tempo para um ciclo completo:
T = 1 / f
Exemplo: Para um sistema de 400 Hz:
T = 1 / 400 = 0,0025 s = 2,5 ms
Sistemas Trifásicos
Num sistema trifásico:
- Três tensões estão separadas por 120 graus elétricos
- A sequência de fases (A-B-C) determina o sentido de rotação dos motores trifásicos
Ligação em Estrela (Wye):
V_linha = √3 × V_fase
Exemplo: Com uma tensão de fase de 115 V CA:
V_linha = 1,732 × 115 = 199,2 V ≈ 200 V CA
Frequência do Gerador CA
A frequência de um gerador CA é determinada por:
f = (P × N) / 120
Onde:
- f = frequência em Hz
- P = número de polos
- N = velocidade de rotação em RPM
Exemplo: Um alternador de 4 polos que produz 400 Hz:
N = (f × 120) / P = (400 × 120) / 4 = 48.000 / 4 = 12.000 RPM
3.7 Transformadores
Princípios dos Transformadores
Um transformador transfere energia elétrica entre circuitos através de indutância mútua. Para um transformador ideal:
V_p / V_s = N_p / N_s
Onde:
- V_p = tensão primária
- V_s = tensão secundária
- N_p = espiras do primário
- N_s = espiras do secundário
Exemplo 1: Um transformador com uma relação de espiras de 10:1 (primário para secundário), tensão primária de 115 V CA:
V_s = V_p × (N_s / N_p) = 115 × (1/10) = 11,5 V CA
Exemplo 2: Um transformador com 1000 espiras no primário e 250 espiras no secundário, tensão primária de 115 V CA:
V_s = 115 × (250 / 1000) = 115 × 0,25 = 28,75 V CA
Aplicações de Transformadores em Aeronaves
- Transformadores redutores reduzem 115 V CA para tensões mais baixas para a aviónica
- Transformadores elevadores aumentam a tensão para sistemas de ignição
- Transformadores de isolamento fornecem separação elétrica entre circuitos### 3.8 Capacitância e Indutância
Capacitores
Um capacitor armazena energia num campo elétrico entre as suas placas. Propriedades principais:
- A capacitância é medida em farads (F) — tipicamente microfarads (µF) em aplicações aeronáuticas
- Os capacitores são utilizados para filtragem, circuitos de temporização e suavização de fontes de alimentação
Ligação em Série:
1/C_total = 1/C₁ + 1/C₂
Exemplo: Dois capacitores de 100 µF em série:
C_total = 1 / (1/100 + 1/100) = 1 / (0,02) = 50 µF
Ligação em Paralelo:
C_total = C₁ + C₂
Indutores
Um indutor armazena energia num campo magnético. A indutância é medida em henries (H).
Díodos de Roda Livre (Flyback):
Quando uma carga indutiva (como uma bobina de relé) é desligada, o campo magnético em colapso induz um pico de alta tensão. Um díodo de roda livre ligado em paralelo com a carga indutiva fornece um caminho para a corrente quando o interruptor abre, suprimindo o pico de tensão e protegendo os componentes de comutação.
3.9 Dispositivos Semicondutores
Fundamentos de Díodos
Um díodo é um dispositivo semicondutor que permite a passagem de corrente num único sentido:
- Polarização direta: Ânodo positivo em relação ao cátodo — a corrente flui
- Polarização inversa: Cátodo positivo em relação ao ânodo — a corrente é bloqueada
O silício é o material padrão para díodos de potência em alternadores de aeronaves devido à sua elevada tolerância à temperatura e baixa corrente de fuga.
Díodos Zener
Um díodo Zener é concebido para operar em rutura inversa e mantém uma tensão quase constante. Isto torna-o ideal para:
- Circuitos de regulação de tensão
- Fontes de tensão de referência
Símbolo esquemático: Semelhante a um díodo normal, mas com uma linha de cátodo curvada (como uma forma de 'S').
Aplicações de Semicondutores
- Retificadores: Convertem CA em CC nos alternadores
- Reguladores de tensão: Mantêm uma tensão de saída constante
- Circuitos de proteção: Suprimem picos de tensão
3.10 Motores CC
Princípios do Motor
Um motor CC converte energia elétrica em energia mecânica. A interação entre o campo magnético e a corrente da armadura produz binário.
Motores de Enrolamento em Série
Características:
- Enrolamento de campo em série com a armadura
- Fluxo de campo proporcional à corrente da armadura
- Binário de arranque muito elevado
- Má regulação de velocidade sob carga variável
Aplicação: Motores de arranque — em repouso, a corrente de pico é elevada, produzindo um binário de arranque muito elevado, essencial para acionar motores de pistão.
Motores de Enrolamento Derivado (Shunt)
Características:
- Enrolamento de campo em paralelo com a armadura
- Boa regulação de velocidade
- Binário de arranque baixo
Aplicação: Aplicações de velocidade constante onde se esperam variações de carga.
Motores de Enrolamento Composto
Características:
- Enrolamentos de campo em série e derivado
- Binário de arranque elevado (componente em série)
- Regulação de velocidade estável (componente derivado)
Aplicação: Arrancadores-geradores em motores de pistão de helicópteros.
3.11 Geradores CA (Alternadores)
Geração CA Trifásica
Os alternadores de aeronaves produzem tipicamente energia CA trifásica a 400 Hz e 115 V CA de tensão de fase (200 V entre fases em ligação estrela).
Relações de Fase
Num sistema trifásico, as três fases estão separadas por 120 graus elétricos. A sequência de fases (A-B-C) é crítica para:
- O sentido de rotação dos motores trifásicos
- A sincronização de geradores em paralelo
- A ligação correta das cargas
Sistemas de Ignição por MagnetoUm magneto utiliza um íman permanente rotativo para induzir uma tensão CA na bobina primária, que é depois elevada por um transformador para produzir a faísca de ignição. O condensador no circuito do magneto absorve energia quando os contactos do disjuntor abrem, evitando a formação de arco elétrico e permitindo que a corrente primária caia rapidamente, induzindo uma alta tensão na bobina secundária.
3.12 Cablagem e Dispositivos de Proteção
Proteção de Circuitos
Os disjuntores são dispositivos de proteção que disparam em caso de corrente excessiva, evitando danos na cablagem e nos equipamentos. Princípios fundamentais:
- Um disjuntor calibrado para 5 A dispara quando a corrente excede 5 A
- A calibragem do fio deve ser superior à calibragem do disjuntor para que o disjuntor proteja o fio
- Uma sobrecarga é a causa mais provável do disparo de um disjuntor
Ligação Elétrica (Bonding)
A ligação elétrica garante continuidade elétrica entre componentes metálicos para:
- Proteção contra descargas atmosféricas
- Descarga de eletricidade estática
- Caminhos de retorno de corrente
Valores de resistência aceitáveis:
- Ligação estrutural primária (ex.: motor para a fuselagem): máximo 0,1 Ω (100 miliohm)
- Uma leitura de 1,5 Ω indica uma ligação deficiente que requer ação corretiva
Práticas de Cablagem
Os pares entrelaçados blindados são utilizados na cablagem de áudio e sensores de helicópteros para:
- Reduzir interferência eletromagnética (EMI)
- Minimizar diafonia entre circuitos adjacentes
- Proteger sinais de baixo nível em aviónicos
Teste de Resistência de Isolamento
- Resistência de isolamento mínima aceitável para cablagem de aeronaves: 1 MΩ
- A tensão de teste deve ser adequada à tensão do sistema
- Para sistemas de 28 V, utilize um megômetro de 50 V ou 100 V, não um megômetro de 500 V
3.13 Instrumentos de Teste e Resolução de Problemas
Resolução Sistemática de Problemas
Quando um componente não está a funcionar:
- Verificar a alimentação elétrica: Medir a tensão nos terminais do componente
- Verificar a cablagem: Teste de continuidade da fonte ao componente
- Verificar o componente: Se a tensão correta estiver presente mas o componente não funcionar, a avaria está dentro do próprio componente
Técnicas de Medição
| Medição | Instrumento | Método de Ligação |
|---|---|---|
| Tensão | Voltímetro | Em paralelo com o componente |
| Corrente | Amperímetro | Em série no circuito |
| Corrente (em serviço) | Amperímetro de alicate | À volta do condutor |
| Resistência | Ohmímetro | Circuito desenergizado |
| Frequência | Frequencímetro | Em paralelo com a fonte |
| Resistência de isolamento | Megômetro | Entre o condutor e a massa |
| Densidade relativa | Densímetro | Amostra de eletrólito |
Relações Comuns Entre Conceitos
Lei de Ohm e Triângulo de Potência
A relação entre tensão, corrente, resistência e potência constitui a base de toda a análise de circuitos:
V = I × R e P = V × I
Estas combinam-se para dar:
- P = I² × R
- P = V² / R
Funcionamento em Paralelo do Gerador e da Bateria
Num sistema DC de helicóptero:
- Tensão do gerador > tensão da bateria → a bateria carrega
- Tensão do gerador < tensão da bateria → a bateria descarrega (o RCC abre)
- A bateria atua como filtro, suavizando a ondulação da tensão
Relações do Transformador e do Gerador
- Transformador: V_p / V_s = N_p / N_s
- Frequência do gerador: f = (P × N) / 120
- Estrela trifásica: V_linha = √3 × V_fase
Indicadores do Estado de Carga da Bateria
- Densidade relativa: Diretamente proporcional ao SOC
- Tensão de circuito aberto: Superior à nominal quando totalmente carregada
- Contabilização de ampere-hora: SOC = (Capacidade − Descarga) / Capacidade
Pontos Típicos de Foco em ExamesPara o exame do Módulo 3 da EASA Part-66 ao nível B1.4, os candidatos devem focar-se em:
- Lei de Ohm e cálculos de potência — ser capaz de calcular corrente, tensão, resistência e potência em circuitos de corrente contínua (CC) (Nível 3)
- Características das baterias — interpretação da densidade específica, avaliação do estado de carga (SOC) com base na tensão, efeitos da resistência interna, cálculos de ampere-hora (Nível 3)
- Princípios do gerador de CC — cálculo da força eletromotriz (EMF), regulação de tensão, controlo da corrente de campo, proteção contra corrente inversa (Nível 3)
- Funcionamento do starter-gerador — características da máquina de enrolamento composto, campo em série para binário de arranque, funcionamento do solenoide (Nível 3)
- Sistemas trifásicos de corrente alternada (CA) — relações de fase (120°), ligações em estrela/triângulo, relações de tensão linha-fase, cálculo de frequência (Nível 3)
- Cálculos de transformadores — relação de espiras, transformação de tensão para aplicações de elevação e redução (Nível 3)
- Dispositivos semicondutores — funcionamento do díodo Zener, díodos de retorno (flyback), silício como material padrão (Nível 2)
- Utilização de equipamentos de teste — seleção correta do instrumento, métodos de ligação, classificações de tensão do megger, aplicação do amperímetro de pinça (Nível 2)
- Cablagem e proteção — funcionamento do disjuntor, limites de resistência de ligação à terra, mínimos de resistência de isolamento, pares entrelaçados blindados (Nível 2)
- Lógica de resolução de problemas — abordagem sistemática ao diagnóstico de falhas, presença de tensão nos terminais dos componentes (Nível 2)
- Conversões de unidades — unidades SI, relações período/frequência, cálculos de ampere-hora (Nível 2)
- Combinações de condensadores — ligações em série e em paralelo, cálculos de capacitância total (Nível 2)
Referências Regulamentares
Este material de estudo está alinhado com:
- Regulamento (UE) n.º 1321/2014, Anexo III (Part-66)
- Apêndice I — Programa de Conhecimentos Básicos, Módulo 3: Fundamentos Elétricos
- AMC/GM da Part-66 — Meios de Conformidade Aceitáveis e Material de Orientação
- Manuais de Manutenção de Aeronaves (AMM) — procedimentos e limites específicos para tipos de aeronaves individuais
Os níveis de conhecimento para os tópicos do Módulo 3 variam do Nível 1 (visão geral) ao Nível 3 (teoria detalhada), sendo os tópicos mais críticos para o pessoal certificador B1.4 os geradores de CC, geradores de CA, transformadores, baterias e dispositivos semicondutores.
Pratique este módulo
Reforce Module 3: Electrical Fundamentals com 52 perguntas de prática em estilo EASA, adaptadas aos seus pontos fracos.